domingo, 3 de maio de 2009

De Cartas

Acordou meio cansada. “Afinal, que horas são? Mais de duas da matina. Puta que pariu!” – Pensou alto, quase acordando o corpo que estava ao lado. Esse respirou alto, como quem não se importa com nada e voltou pro seu sono de pedra. “Caralho, esse babaca tinha que dormir aqui hoje? Bem, bem. Fiz, agora tenho que aturar”.

Levantou da cama, examinando o próprio corpo para ver o que sobrara da luta dos desejos no qual achou ter sido consumida. Nada, como sempre, só o outro levara o prêmio, e ela mais uma vez estava sozinha na noite. “Noite quente pra caramba! Quero água e sossego. Só de pensar que amanha ainda tenho que aturar um bom dia desse Fulano.” – Não que ela não soubesse o nome do homem que deixara no quarto, e não que não tivesse por ele amizade. Estava começando o seu ciclo de desapego e a primeira providencia era despir o homem do nome. Agora ele era mais um e ela era livre. Livre e entediada de ter que ainda aturar esse jogo de empurra. Não se sentia culpada, longe disso. O Fulano não a amava, ou pelo menos nunca havia demonstrado.

Na cozinha, a água desceu-lhe a garganta como um rio montanhês, gelado e rápido! O corpo abatido pela solidão se reanimou, pensou no futuro, pensou em comer pizza na próxima noite, ela e a pizza, sozinhos. Muito melhor que o jantar com o Fulano que lhe causava calafrios ao lembrar. A enchera mais uma vez de rosas e presentes caros, e mais um novo restaurante da moda. Muitas caras, muitas vozes e ela repleta de solidão. Como anseava por alguém que a lesse e descobri-se nela coisas novas. O Fulano só tinha olhos pra si mesmo, namorando nela a sua imagem de mulher perfeita.

“Que saco!” – Pensou ao se olhar no espelho – “Como me dou pra esse tipo de babaca? Estou tão carente assim? Não, não! Estou bem, tenho amigos e carreira. Amanha ainda recebo outra bonificação na empresa. Eles sem mim não são nada.” – Pensou risonha, se enaltecendo, como se o espelho fosse capaz de ganhar vida e naquele exato momento bater-lhe uma salva de palmas! Mas nada, só havia silencio misturado no ronco mecânico do motorzinho do Fulano.

Umas contas na mesa lembraram-na de que ela existia. Sim, era viva e tinha nome. Tinha nome porque alguém lhe dera essa dádiva. Tinha vida porque alguém resolveu procriar. E existia porque tinha dividas. Mal lembrara a ultima vez que alguém a telefonara sem segundas intenções. Em uma vida tão cheia, o vazio parecia ter lugar de destaque. O que justificava a sua existência, novamente, as contas na mesa.

À volta ao quarto, o ronco mecânico de Fulano a irritava profundamente. Sentia-se uma estranha dentro de seu ninho. Aquele monstro de traços refinados escondia um pequeno demônio por dentro. Parecia tentar saltar de sua clausura, dando ao mundo a graça de sua presença. “Como alguém tem a coragem de dormir na minha cama e roncar? Será que minha presença é assim tão calmante ao ponto dele se sentir em casa? Eu sempre tive tanto cuidado pra separar esses “lanches rápidos” da minha vida pessoal. Como eu deixei que ele ficasse aqui essa noite.” – pensou. A presença daquele estranho recente a deixara sem lugar. Queria fugir. Não podia. Estava presa as coisas materiais pelo qual sua vida tinha sentido. Ela era a televisão LCD, o notebook, o celular, os sapatos e tudo que compunha o seu santuário domestico. “Vai que ele resolve me fazer à limpa.” Eles eram suas conquistas, sua vitorias. Um conforto vendido em todas as lojas, mas disponível para poucos. Enfim, uma real conquista.

Resolvera uma tentar voltar ao sono perdido. Deitou-se do lado de Fulano. Esse simulou um abraço, mas não o concluiu. Ela estremeceu como se um rato, uma barata ou algum outro ser repugnante fizesse contato com seu corpo. “Que nojo!” – pensou. Naquele instante, dividindo o mesmo colchão com um homem ha qual horas atrás se entregara, não sentia a leveza que os romances e filmes mostram em seus enredos. Não amava, não era amada, não suportava o homem que estava ao seu lado, mas o usava para aliviar a libido. Em um contrato sub-entendido, ele fazia o mesmo. “Com muitas outras, aposto eu! Se fosse apenas comigo, talvez não o detestasse tanto assim.” – Tentara justificar a carência simulando uma alto-estima inexistente. Falhou, ela mesma sabia que se tivesse a oportunidade, faria o mesmo. E mesmo assim, seria vazia.

“Como se amar alguém fosse a única forma de felicidade, como se eu tivesse que ser amada. Quem precisa de um homem perfeito? Tenho a mim mesma e isso me basta.” – Assim lutava para acreditar. Não percebia que sua existência só teria sentido no amor e assim, continuara a negar o fato que não amava a si mesma.

Os olhos finalmente pesaram. Ela dormiu. Acordou e Fulano ainda era só sonho. Maquinalmente fez tudo como faz todos os dias. A rotina imutável, o estranho não era empecilho, muito menos digno de mudança na vida dela. No ciclo matinal costumeiro, foi banho, muda de roupa, TV ligada, café novinho, pão com manteiga e uma ultima checada nos compromissos do dia. A descarga canta no banheiro, e é o canto de Fulano. Com um bom dia de quem dormiu o sono dos anjos, ele a cumprimenta. Ela retribui, com falsidade impecável. Não sabia por que tinha sido falsa, porque não tinha expulsado-o logo de uma vez. Talvez tivesse medo da solidão. Mas isso não poderia ser. Já era só. Tinha medo de ser feliz.

Um café ali, um pãozinho lá e logo se foi Fulano. Ela conteve a sensação de alivio diante dele no adeus quase forçado. Foi como se naquele instante, respirasse novamente. Fulano não era mais real dentro dela, dentro de seu mundo. E ela podia voltar a ser a televisão LCD, o notebook, o celular, os sapatos e tudo que compunha o seu santuário domestico.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

As virgens.

Ele tinha uma simples missão. Acordar em determinado horário, seguir determinada rotina, vestir determinada roupa (com muito cuidado, é claro!), ir a determinado local, esperar um determinado numero de pessoas se aglomerar próximo dele, apertar determinado botão e explodir determinado numero de vitimas e a si mesmo, em determinado numero de pedacinhos (neste caso, mil!).

Tudo muito simples, mas na cabeça de Hassan, não era simples assim. Pensará no dia anterior quando fizera seu vídeo suicida, e em meio de tantos, Alás, Alás e mais Alás, só lhe vinha um pensamento - Alá, os pedacinhos de Hassan. Alá, Hassan morrendo! Alá, Hassan chegando ao paraíso dentro de um balde!

Sim, estava com medo, mas como não tinha outra escolha para alcançar seu objetivo de vida, ser famoso, resolveu engolir seco e partir ao seu destino. Uma dessas esquinas populosas, dessas zonas de guerra no meio do deserto. O que se disputa por aqui? – pensou ele. Quem tem mais areia? A duna do vizinho tem areia mais fofinha? – conclui.

Para um lugar sagrado, Alá, havia sido muito sarcástico, ou poderia ser apenas uma jogada de marketing.   Algum anjo pode ter dito – Alá, alá, ali ta faltando água. O que a gente faz? – e Alá pode ter respondido – Vamos dizer que é sagrado para aumentar o valor de propriedade, meu filho. Hassan sentia sua fé escorrer pelos seus medos e decidiu se lembrar dos ensinamentos. Devia voltar para sua missão. Respirou e seguiu caminho.

Mas como é difícil se manter tranqüilo quando a morte esta em seu lado, a um aperto de um botão de distancia. Lembrou da vida difícil que levara até então. Da sua total falta de talento, que o afastara da fama. Para conseguir seu objetivo, a vida deu-lhe apenas duas opções: Cobrir um ataque suicida como correspondente da TV Al Jazeera, sendo famoso por enaltecer a morte “santa” alheia; Ou ser o astro do show, explodindo para a fama. Literalmente. Como era muito pobre, lhe sobrou apenas a segunda opção.

Bom, pensou ele, pelo menos no paraíso haverá recompensa. Oitenta e sete virgens! Oitenta e sete! – Era virgem pra caramba, aliás, virgem demais.  Tanta que o santo desconfia, e mesmo não acreditando em santo, Hassan questionou – De onde sai tanta virgem? Ainda mais numa cultura onde um homem pode se casar com até quatro mulheres! Só não casa quem não quer! Que tipo de mulher morre virgem? – pensou Hassan assustado. Isso não era tão bom quanto o folheto dizia. Será que Alá tem fabrica de virgem no paraíso? E depois de usar, tem que jogar fora? Não é um bem renovável? E quando acabar às oitenta e sete? Eu vou fazer o que? – indagou Hassan descontente com a barganha que fizera com o Jihad.

Poxa, pensou, acho que preferia uma boa mulher, alguns bens e uma vida feliz. E se elas quiserem vir todas de uma vez? O que eu faço? Morro sufocado no mar de pernas! Será que se morre no paraíso?

Pensou em desistir da missão, mas era tarde demais. Havia chegado ao destino. Em sua tempestade cerebral, não percebera que o corpo continuara o trajeto proposto sem ele e quando deu por si, era hora (hora de explodir!).

O que se seguiu foi o comum de zonas de guerra, pedacinhos. Para todo o lado. E Hassan foi um estouro, pelo menos uma vez na vida.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Moça ve rapaz, rapaz ve moça.

Uma cena comum, em um bar, como tantas outras. Moça vê rapaz, rapaz vê moça. Sem muito na cabeça e com menos ainda a perder, ele se aproxima para fazer vocês bem sabem o que. Ela logo mostra sua satisfação, ora aquele rapaz com ares de bonachão, pose de garanhão e língua no chão, que moça não ia gostar? Vem o primeiro contato, dois nomes jogados ao vento, sorriso de canto e olhar disfarçado. A moça adorando, o rapaz gamando. Desce chopp, garçom mais dois. “Piña Colada pra moça?”. “Claro, por que não?”. Conversa animada, ânimos no avião, prontos para decolar. Conversa vai e nesse vai e vem, lubrificado com álcool e lugar de primeira, as mascaras dão lugar para as brincadeiras. Pequenas verdades, pedacinhos de personalidade, vêm à tona, sem vergonha, nem maldade. 

Ele descobre nela uma torcedora assídua, sempre no campo atrás do seu time. Ela diz “é o Quinze, é o Quinze! O melhor time desse país!”. Ele ri e descobre que a paixão é hereditária, herdada de pai e avô, que fizeram dela uma torcedora do mais intenso fervor. Ela descobre nele uma pessoa sensível, que gosta de flores, perfumes e gente. De toda cor, com ou sem dente, cabeludos, carecas, penteados ou sem um pente. “Meu Deus” pensara ela, “como ele gosta de gente”. E de animais, seria possível similar paixão. Resolveu perguntar, qual poderia ser o mal? 

Pergunta no ar, este já cheio de sinceridade e confiança, ele poderia até pecar, mas dentro dela já havia a fiança para liberá-lo de qualquer crime cometido. Então assim, bem de mansinho, ao pé do ouvido, disse-lhe que sim. Tinha amor contido dentro do seu coração para o reino animal. Amor e paixão! “Paixão”, indagou ela, sem muito entender. Seria ele veterinário e não empresário como havia antes dito? E ela avoada na duvida, ele aflito. 

Tentou se explicar, “paixão, eu repito”. “Eu sou empresário, trabalho muito, como hobby tenho banda. Toco guitarra todos os dias, em minha casa, na varanda. Tenho só um amor na vida. Esse amor é o urso panda.” 

Na falácia ter se exposto demais. Desconversou, mas ela insistiu, “urso panda, como assim, rapaz?”. O que poderia dizer, falou com veracidade. Agora com segredo nu, só queria liberdade da situação em que adentrará. 

“Bom, vou ser sincero. Entenda-me, assim espero. O panda para mim é uma criatura muito especial, especialmente o rabinho, que é sensacional. Já tentei todas as taras, Papai Noel, Saci, E.T., mas sem sexo de pandas, não sei como viver. E não me olhe assim, pois não sou monstro, não! Cada um tem direito de ser dono do seu próprio tesão. Urso panda, mula manca, sado-maso e esfregão. Todo mundo tem um lado louco que tenta esconder, o meu é amor por pandas, sem o qual não sei viver. Quando quis Papai Noel, não havia nele panda. Quando quis Saci, nada de panda. No E.T., tão pouco. Assim vivia a vida em um sufoco!” 

Ela assustada, mal podia acreditar, que naquele lugar comum, numa situação como tantas outras, moça vê rapaz, rapaz vê moça, par fosse encontrar. E assim termina a historia, nada mais a se dizer. E o casal que violenta pandas continua a viver, juntinhos e bem felizes, bem como havia de ser.


PS:

Eba! Que massa! Indicado pelo blog da Virgula a esse selo. =)