Acordou meio cansada. “Afinal, que horas são? Mais de duas da matina. Puta que pariu!” – Pensou alto, quase acordando o corpo que estava ao lado. Esse respirou alto, como quem não se importa com nada e voltou pro seu sono de pedra. “Caralho, esse babaca tinha que dormir aqui hoje? Bem, bem. Fiz, agora tenho que aturar”.
Levantou da cama, examinando o próprio corpo para ver o que sobrara da luta dos desejos no qual achou ter sido consumida. Nada, como sempre, só o outro levara o prêmio, e ela mais uma vez estava sozinha na noite. “Noite quente pra caramba! Quero água e sossego. Só de pensar que amanha ainda tenho que aturar um bom dia desse Fulano.” – Não que ela não soubesse o nome do homem que deixara no quarto, e não que não tivesse por ele amizade. Estava começando o seu ciclo de desapego e a primeira providencia era despir o homem do nome. Agora ele era mais um e ela era livre. Livre e entediada de ter que ainda aturar esse jogo de empurra. Não se sentia culpada, longe disso. O Fulano não a amava, ou pelo menos nunca havia demonstrado.
Na cozinha, a água desceu-lhe a garganta como um rio montanhês, gelado e rápido! O corpo abatido pela solidão se reanimou, pensou no futuro, pensou em comer pizza na próxima noite, ela e a pizza, sozinhos. Muito melhor que o jantar com o Fulano que lhe causava calafrios ao lembrar. A enchera mais uma vez de rosas e presentes caros, e mais um novo restaurante da moda. Muitas caras, muitas vozes e ela repleta de solidão. Como anseava por alguém que a lesse e descobri-se nela coisas novas. O Fulano só tinha olhos pra si mesmo, namorando nela a sua imagem de mulher perfeita.
“Que saco!” – Pensou ao se olhar no espelho – “Como me dou pra esse tipo de babaca? Estou tão carente assim? Não, não! Estou bem, tenho amigos e carreira. Amanha ainda recebo outra bonificação na empresa. Eles sem mim não são nada.” – Pensou risonha, se enaltecendo, como se o espelho fosse capaz de ganhar vida e naquele exato momento bater-lhe uma salva de palmas! Mas nada, só havia silencio misturado no ronco mecânico do motorzinho do Fulano.
Umas contas na mesa lembraram-na de que ela existia. Sim, era viva e tinha nome. Tinha nome porque alguém lhe dera essa dádiva. Tinha vida porque alguém resolveu procriar. E existia porque tinha dividas. Mal lembrara a ultima vez que alguém a telefonara sem segundas intenções. Em uma vida tão cheia, o vazio parecia ter lugar de destaque. O que justificava a sua existência, novamente, as contas na mesa.
À volta ao quarto, o ronco mecânico de Fulano a irritava profundamente. Sentia-se uma estranha dentro de seu ninho. Aquele monstro de traços refinados escondia um pequeno demônio por dentro. Parecia tentar saltar de sua clausura, dando ao mundo a graça de sua presença. “Como alguém tem a coragem de dormir na minha cama e roncar? Será que minha presença é assim tão calmante ao ponto dele se sentir em casa? Eu sempre tive tanto cuidado pra separar esses “lanches rápidos” da minha vida pessoal. Como eu deixei que ele ficasse aqui essa noite.” – pensou. A presença daquele estranho recente a deixara sem lugar. Queria fugir. Não podia. Estava presa as coisas materiais pelo qual sua vida tinha sentido. Ela era a televisão LCD, o notebook, o celular, os sapatos e tudo que compunha o seu santuário domestico. “Vai que ele resolve me fazer à limpa.” Eles eram suas conquistas, sua vitorias. Um conforto vendido em todas as lojas, mas disponível para poucos. Enfim, uma real conquista.
Resolvera uma tentar voltar ao sono perdido. Deitou-se do lado de Fulano. Esse simulou um abraço, mas não o concluiu. Ela estremeceu como se um rato, uma barata ou algum outro ser repugnante fizesse contato com seu corpo. “Que nojo!” – pensou. Naquele instante, dividindo o mesmo colchão com um homem ha qual horas atrás se entregara, não sentia a leveza que os romances e filmes mostram em seus enredos. Não amava, não era amada, não suportava o homem que estava ao seu lado, mas o usava para aliviar a libido. Em um contrato sub-entendido, ele fazia o mesmo. “Com muitas outras, aposto eu! Se fosse apenas comigo, talvez não o detestasse tanto assim.” – Tentara justificar a carência simulando uma alto-estima inexistente. Falhou, ela mesma sabia que se tivesse a oportunidade, faria o mesmo. E mesmo assim, seria vazia.
“Como se amar alguém fosse a única forma de felicidade, como se eu tivesse que ser amada. Quem precisa de um homem perfeito? Tenho a mim mesma e isso me basta.” – Assim lutava para acreditar. Não percebia que sua existência só teria sentido no amor e assim, continuara a negar o fato que não amava a si mesma.
Os olhos finalmente pesaram. Ela dormiu. Acordou e Fulano ainda era só sonho. Maquinalmente fez tudo como faz todos os dias. A rotina imutável, o estranho não era empecilho, muito menos digno de mudança na vida dela. No ciclo matinal costumeiro, foi banho, muda de roupa, TV ligada, café novinho, pão com manteiga e uma ultima checada nos compromissos do dia. A descarga canta no banheiro, e é o canto de Fulano. Com um bom dia de quem dormiu o sono dos anjos, ele a cumprimenta. Ela retribui, com falsidade impecável. Não sabia por que tinha sido falsa, porque não tinha expulsado-o logo de uma vez. Talvez tivesse medo da solidão. Mas isso não poderia ser. Já era só. Tinha medo de ser feliz.
Um café ali, um pãozinho lá e logo se foi Fulano. Ela conteve a sensação de alivio diante dele no adeus quase forçado. Foi como se naquele instante, respirasse novamente. Fulano não era mais real dentro dela, dentro de seu mundo. E ela podia voltar a ser a televisão LCD, o notebook, o celular, os sapatos e tudo que compunha o seu santuário domestico.
1 comentários:
Indicado pela virgula tinha de ser 10!
Capitu
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